Quem sou eu

Quem sou eu
Em primeiro lugar uma pessoa grata a Deus por cada dia a mais que Ele me dá neste mundo de loucos ( sou uma deles )Depois mulher e mãe. Sempre fui apaixonada por livros e os meus são só a extensão desta paixão. Se escrevo bem, se consigo emocionar, vocês que vão dizer.

Primeiro Capítulo

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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Novidade: Paixão sem Limite!




CAPÍTULO 1

O que eu costumava ver estacionado em frente a uma casa onde estivesse
ocorrendo uma festa eram caminhonetes com lama nos pneus,
não automóveis caros e importados. Pelo menos vinte deles ocupavam o
comprido acesso de carros daquela casa. Parei a picape Ford de quinze
anos da minha mãe em cima da grama para não atrapalhar a saída de ninguém.
Meu pai não tinha me dito que daria uma festa esta noite. Na verdade,
não tinha me dito quase nada.
Ele tampouco havia aparecido para o funeral da minha mãe. Se eu não
precisasse de um lugar para morar, não estaria ali. Tive que vender a casinha
que a minha avó nos deixara para pagar as últimas despesas médicas
da minha mãe. Tudo que me restava eram as minhas roupas e a picape.
Ligar para o meu pai depois de ele não aparecer nem uma vez sequer durante
os três anos da batalha da minha mãe contra o câncer foi complicado.
Complicado, mas necessário: ele era o único parente que me restava.
Olhei para a imensa casa de três andares situada bem em cima da areia
branca da praia de Rosemary, na Flórida. Aquela era a nova casa do meu
pai. Sua nova família. Eu não iria me encaixar ali.
De repente, alguém abriu com um tranco a porta da minha picape. Por
instinto, levei a mão até debaixo do assento e peguei a minha nove milímetros.
Levantei-a e apontei em cheio para o intruso, segurando-a com as
duas mãos e pronta para puxar o gatilho.
– Caraca... eu ia dizer que você estava perdida, mas agora digo o que
você quiser. Só guarda esse troço, por favor.
Do outro lado da minha pistola estava um sujeito de cabelos castanhos
desgrenhados presos atrás das orelhas, com as duas mãos para cima e os
olhos arregalados.
Levantei uma das sobrancelhas e mantive a pistola firme. Ainda não sabia
quem era aquele cara. Puxar a porta da picape de alguém com um tranco
não era um jeito normal de cumprimentar um desconhecido.
– Não, acho que não estou perdida. Aqui não é a casa de Abraham Wynn?
8
O sujeito engoliu em seco, nervoso.
– Hã... com esse troço apontado para a minha cara eu não consigo pensar
direito. Você está me deixando bem nervoso, meu bem. Poderia baixar
a pistola antes que aconteça um acidente?
Acidente? Sério? O cara estava começando a me irritar.
– Eu não conheço você. Está escuro aí fora e eu estou sozinha em um
lugar desconhecido. Então me desculpe se eu não me sentir muito segura
neste momento. Pode confiar em mim: não vai acontecer acidente nenhum.
Eu sei manejar uma pistola muito bem.
O cara não pareceu acreditar em mim e, agora que eu estava olhando
melhor, não me parecia realmente ameaçador. Mesmo assim, eu ainda não
estava pronta para baixar a arma.
– Abraham? – repetiu ele devagar. Começou a balançar a cabeça, então
parou. – Peraí, o padrasto novo do Rush se chama Abe. Eu o conheci antes
dele e Georgianna viajarem para Paris.
Paris? Rush? Como assim? Esperei mais explicações, mas o cara continuou
a encarar a pistola, prendendo a respiração. Com os olhos fixos nele,
baixei a arma e me certifiquei de acionar a trava de segurança antes de
guardá-la debaixo do banco do motorista. Talvez sem a pistola ele conseguisse
se concentrar e me explicar.
– Você tem porte de arma para esse troço? – perguntou ele, sem acreditar.
Eu não estava com disposição para conversar sobre o meu direito de
portar armas. Precisava de respostas.
– Abraham está em Paris? – perguntei, querendo uma confirmação.
Ele sabia que eu chegaria hoje. Tínhamos nos falado na semana anterior,
depois que vendi a casa.
O sujeito fez que sim devagar e relaxou a postura.
– Você o conhece – perguntou?
Na verdade, não. Desde que ele tinha abandonado a minha mãe e eu
havia cinco anos, eu só o vira umas duas vezes. Eu me lembrava do pai que
assistia às minhas partidas de futebol e fazia hambúrgueres na churrasqueira
do quintal para as festas dos vizinhos do bairro. O pai que eu tivera até o
dia em que a minha irmã gêmea, Valerie, morreu em um acidente de carro...
quando ele estava dirigindo. Nesse dia, ele mudou e se tornou o homem que
não me ligava para saber se eu estava bem enquanto cuidava da minha mãe
doente. Esse homem eu não conhecia. Nem um pouco.
9
– Sou a filha dele. Blaire.
O cara arregalou os olhos, jogou a cabeça para trás e riu. Qual era a graça?
Estava esperando que explicasse quando ele estendeu a mão.
– Venha cá, Blaire. Quero apresentar você a uma pessoa. Ele vai amar
saber disso.
Encarei a mão dele e estendi o braço para pegar a minha bolsa.
– Tem outra arma aí nessa bolsa? Devo avisar a todo mundo para não
te irritar?
O tom provocador da voz dele me impediu de dizer alguma grosseria.
– Você abriu a minha porta sem bater. Fiquei com medo.
– E a sua reação instantânea quando sente medo é apontar uma arma?
Caramba, menina, de onde você é? A maioria das garotas que eu conheço
daria um gritinho ou alguma coisa assim.
A maioria das meninas que ele conhecia não fora forçada a se proteger
nos últimos três anos. Precisei cuidar da minha mãe, mas não tinha ninguém
para cuidar de mim.
– Eu sou do Alabama – respondi, ignorando a mão dele e saltando sozinha
da picape.
A brisa do mar bateu no meu rosto e o cheiro salgado da praia era inconfundível.
Eu nunca tinha visto uma praia. Pelo menos não ao vivo. Apenas
em fotos e filmes, mas o cheiro era exatamente o que eu imaginava que seria.
– Quer dizer então que é verdade o que dizem sobre as meninas de Bama
– retrucou ele e isso me chamou a atenção.
– Como assim?
Ele desceu os olhos pelo meu corpo e tornou a subir até o meu rosto.
Abriu um sorriso.
– Jeans justo, camiseta sem manga e uma pistola. Caramba, acho que
errei de estado.
Revirei os olhos e abri a traseira da picape. Tinha uma mala e várias caixas
que precisava levar para a Legião da Boa Vontade.
– Deixe eu te ajudar.
Ele deu a volta e estendeu as mãos para dentro da caçamba da picape
para pegar a mala que a minha mãe mantivera guardada no armário para
a “viagem de carro” que nunca chegamos a fazer. Ela vivia dizendo que
um dia iríamos atravessar o país e subir a costa oeste. Isso foi antes de ela
ficar doente.
10
Espantei essas lembranças e me concentrei no presente.
– Obrigada, hã... acho que não sei o seu nome.
O cara puxou a mala e se virou de volta para mim.
– Como assim? Esqueceu de perguntar quando estava com a arma apontada
para a minha cara?
Dei um suspiro. Bem, talvez eu tenha exagerado um pouco com a pistola,
mas ele me assustara.
– Meu nome é Grant. Eu sou... hã... amigo do Rush.
– Rush? – O mesmo nome outra vez. – Quem é Rush?
O sorriso de Grant tornou a se abrir.
– Você não sabe quem é Rush? – Ele estava achando muita graça. – Porra,
que bom que eu vim aqui hoje. – Ele virou a cabeça em direção à casa.
– Vamos. Vou apresentar você.
Fui andando ao seu lado enquanto ele me conduzia até a casa. Quando
nos aproximamos, a música lá dentro ficou mais alta. Se o meu pai não
estava lá, quem estaria? Georgianna era a mulher dele, mas isso era tudo o
que eu sabia. Será que aquela festa era dos filhos dela? Quantos anos eles
tinham? Georgianna tinha filhos, não tinha? Eu não me lembrava. Meu
pai fora muito vago ao falar dela. Dissera que eu iria gostar da minha nova
família, mas não mencionou quem era essa família exatamente.
– Esse Rush mora aqui? – perguntei.
– Mora. Bem, pelo menos no verão. Ele se muda para as suas outras casas
conforme a estação.
– Outras casas?
Grant deu uma risada.
– Você não sabe nada sobre a família para a qual o seu pai entrou, né,
Blaire?
Mal sabia ele. Fiz que não com a cabeça.
– Então, rápida miniaula antes de entrarmos na loucura – disse ele, parando
no alto da escada que conduzia à porta da frente e olhando para
mim. – Rush Finlay é o seu irmão postiço. É filho único do famoso baterista
do Slacker Demon, Dean Finlay. Os pais dele nunca se casaram. A mãe,
Georgianna, era groupie quando jovem. Essa casa é dele. A mãe mora aqui
porque ele deixa. – Ele parou e olhou para a porta bem na hora em que ela
se abriu. – E toda essa gente aqui é amiga dele.

Editora Arqueiro.

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